sábado, 18 de outubro de 2008

Eléctrico



Deixei-me levar por um eléctrico com o único desejo de satisfazer a curiosidade do meu filho, sentado de joelhos mesmo no último banco da última carruagem que me ia fazendo o relato da viagem, nomeia marcas, bombeiros, polícias e ambulâncias, carros, comboios, autocarros e carris, por fim, cansado, limita-se a olhar extasiado com os seus olhos que nem quatro anos têm (mas insiste em dizer que cinco já passaram e para o ano serão dez, incrível teoria da relatividade).
Entrámos num eléctrico à toa na Praça da Figueira, e como não podia deixar de ser, escolheu o maior, amarelo, articulado de três “carruagens”. Fomos pela marginal, sem destino, sem pressa na manhã morna a ameaçar chuva.
Lisboa acordou e ao espreguiçar-se foi afastando algumas das nuvens com que se cobrira durante a noite deixando ver um pouco de céu azul aqui e ali e que o Sol fosse tornando morna esta manhã de sábado de Outono. Os lugares sentados foram-se enchendo de turistas palrando no seu alemão acelerado, mirando e fotografando. O Joãozinho fazia o mesmo, agora calado e fotografando na sua memória as ruas, a ponte, os prédios, as avozinhas alemãs a meterem-se com os caracóis dele e ele sisudo, acabrunhado.
Foi curta a viagem, não passámos de Belém, nem de pastéis abastecemos, apanhámos o mesmo eléctrico no regresso, quase vazio. Sentámo-nos nos mesmos lugares em arco, o Joãozinho novamente grudado na paisagem urbana, no movimento sem pressas duma manhã de sábado. Passámos vários grupos de escuteiros a pé em caminhada pelos monumentos da marginal, vamos ziguezagueando, serpenteando por Alcântara, aqui e ali casas antigas, antigas fábricas em ruínas. Onde antes havia um enorme mural do MRPP, há agora um ainda maior painel publicitário da Super Bock, o omnipresente graffiti urbano conspurcando as fachadas dos prédios, antigos e novos. A ligeira brisa mal levanta as bandeiras no alto do castelo de São Jorge, o Tejo é um mar de prata penteado pelos cacilheiros, pelos catamarã, passa uma Tuna Académica dedilhando a guitarra, agitando o pandeiro, recolhendo fundos para os seus momentos de farra, despreocupada e sem responsabilidades.
Nas calmas, sem pressas, sem papéis, nem números, nem teclado, apenas a minha velhinha Parker de tinta permanente (ou de pena como lhes chamávamos na infância) e um bloco notas, e os olhos do Joãozinho devorando a paisagem. Voltámos à Praça da Figueira. E agora quem é que o tira do eléctrico amarelo, sem desejo de se apear?...

PS – Uma simples nota, de tão complicada é a pergunta dum petiz de três anos. Oh pai porque é que o senhor está a tocar música no meio da rua? E eu a tentar explicar-lhe que muitos vivem da bondade, da boa vontade dos outros, porque não conseguem ver, porque para eles não houve outras oportunidades. Pode ser que um dia, no futuro as crianças cresçam sem ter que fazer estas perguntas, porque estas situações já não existirão, e lá estou eu a sonhar acordado outra vez…

2 comentários:

Artista sonhadora disse...

Que texto espectacular titio João,tá mesmo giro,e o Joãozinho é muito inteligente.
Continua a sonhar porque é sempre bom,e o sonho comanda a vida.
Essa de terem ido a Belém e não terem comprado pastéis de Belém é que não dá então lol!!!
E eu sei que eléctrico é esse,deve ser o 15 hehe,também já fiz dessas viagens mas apanhei na praça do comércio,e não cheguei a Belém parei ainda antes,mas claro que conheço.
Pois é titio João,e conheces de certeza penso que era um filme e não um livro,que se chamava um eléctrico chamado desejo,já é antigo,mas bem que o teu escrito poderia ter esse mesmo titulo.
beijinhos grandes. continua a escrever assim.

Ísis disse...

Conta a religião qeu Ísis, concebeu do seu amado Osíris sem sequer ter consumado o acto sexual e que dele teve um filho. O Nosso foi feito com muito amor, com todo amor que temos um pelo outro e que não se esgota, por isso é tão lindo o nosso filho, fruto de um amor muito sofrido, sofrido até ao extremo, quantas vezes até ao límite daquilo que eu podia suportar, quase contra tudo e contra todos, mas por amor luta-se sempre, sempre, desistir do seu verdadeiro amor, depois que o destino nos pôs no caminho um do outro, era desistir da vida, Vida que nos uniu, não através de um par de luvas pretas, mas de uma canção de Rock Sinfónico dos anos 70, chamada Vida e cantada por José Cid.