domingo, 30 de novembro de 2008

Cecília Meireles


Mais um pequeno tributo a Cecília Meireles, estes poemas foram aqui deixados pela minha querida amiga Elizabet.

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
Feito de longe e de leve,
Para que venhas comigo
E eu para sempre te leve…
- Mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
Das montanhas dos instantes
Desmancha todos os mares
E une as terras mais distantes…
- Palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
Entre os ventos taciturnos,
Apago meus pensamentos,
Ponho vestidos nocturnos,
- Que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
Os mundos vão navegando
Nos ares certos do tempo,
Até não se sabe quando… -
E um dia eu me acabarei.

Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
Nem passado.
Deixa o presente — claro muro s
Em coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
Pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
O cometa dos meus males a
Funda, desarvorado.

Fico ao teu lado.


Ninguém me venha dar vida

Ninguém me venha dar vida,
Que estou morrendo de amor,
Que estou feliz de morrer,
Que não tenho mal nem dor,
Que estou de sonho ferida,
Que não me quero curar,
Que estou deixando de ser
E não me quero encontrar,
Que estou dentro de um navio
Que sei que vai naufragar,
Já não falo e ainda sorrio,
Porque está perto de mim
O dono verde-mar que busquei
Desde o começo e estava apenas no fim.
Corações por que chorais?
Preparai meu arremesso para as algas e corais.
Fim ditoso, hora feliz:
Guardai meu amor sem preço
Que só quis a quem não quis.


Inscrição na Areia

O meu amor não tem
Importância nenhuma.
Não tem o peso nem
De uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
Importância nenhuma.
Canção do Sonho Acabado

Já tive a rosa do amor
- Rubra rosa, sem pudor.
Cobicei, cheirei, colhi.
Mas ela despetalou
E outra igual, nunca mais vi.
Já vivi mil aventuras,
Me embriaguei de alegria!
Mas os risos da ventura,
No limiar da loucura,
Se tornaram fantasia...
Já almejei felicidade,
Mãos dadas, fraternidade,
Um ideal sem fronteiras
- Utopia! Voou ligeira,
Nas asas da liberdade.
Desejei viver. Demais!
Segurar a juventude,
Prender o tempo na mão,
Plantar o lírio da paz!
Mas nem mesmo isto eu pude:
Tentei, porém nada fiz...
Muito, da vida, eu já quis.
Já quis... mas não quero mais...


Cecília Meireles

1 comentário:

Maria Mourão disse...

muito bonitos gosto muito dos poemas de Cecilia Meireles
Fatinha